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Saúde dos caminhoneiros expõe desafio estrutural nas rodovias brasileiras

Publicado pela ABTLP
Levantamento realizado no Sul do país reforça relação entre condições de trabalho, qualidade de vida e segurança no transporte de cargas.

A saúde dos caminhoneiros voltou ao centro do debate sobre segurança viária e logística no Brasil. Um levantamento realizado às margens de rodovias no Rio Grande do Sul identificou que grande parte dos motoristas avaliados apresenta excesso de peso. O estudo também aponta que ainda existe um contingente relevante de profissionais que admite dirigir após consumo de álcool ou sob efeito de substâncias estimulantes.

Os dados foram obtidos durante ações periódicas de saúde, em que caminhoneiros são convidados a realizar exames básicos e relatar aspectos da rotina profissional.

Mais do que um recorte pontual, o cenário revela dificuldades históricas enfrentadas por quem vive nas estradas: jornadas extensas, alimentação irregular, pouco descanso e pressão constante por prazos de entrega.

Saúde do motorista interfere diretamente na segurança viária

Especialistas e representantes do setor concordam que o estado físico e mental dos condutores tem impacto direto no risco de sinistros nas rodovias.

Fadiga acumulada, problemas clínicos sem acompanhamento e uso de substâncias para prolongar o tempo ao volante comprometem reflexos, atenção e capacidade de tomada de decisão. Em veículos pesados, qualquer redução de desempenho pode ampliar as consequências de uma ocorrência.

Além dos riscos ao próprio motorista, o problema afeta toda a cadeia logística e os demais usuários das rodovias.

Problema vai além da responsabilidade individual

O Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), que reúne mais de 5 mil profissionais especializados no transporte de veículos zero quilômetro, avalia que os dados revelam um desafio estrutural da atividade.

Segundo José Ronaldo Marques da Silva, presidente do Sinaceg, quando o corpo começa a dar sinais, a estrada já está cobrando um preço alto demais.

“Não dá para tratar a saúde do motorista como um tema periférico, porque é ela que sustenta toda a operação. Ignorar isso é aceitar um risco silencioso, que não aparece na largada, mas se revela no meio do caminho, muitas vezes de forma irreversível, ao preço de vidas”, argumenta.

A avaliação reforça que discutir segurança no transporte de cargas passa também por falar de condições de trabalho, descanso e acesso à saúde.

Consciência operacional também é essencial

Dentro desse contexto, representantes do setor defendem que a dimensão individual também precisa ser considerada na prevenção de riscos.

Para Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg, O uso de entorpecentes é incompatível com a atividade e não pode ser relativizado. “Ao mesmo tempo, é fundamental fortalecer a consciência operacional. O motorista precisa conhecer seus próprios limites, respeitá-los e assumir o protagonismo no cuidado com a própria saúde. Nenhuma estrutura, por mais adequada que seja, substitui essa responsabilidade no dia a dia da operação”, diz.

A fala destaca que políticas públicas e estrutura adequada precisam caminhar junto com responsabilidade individual.

Ações nas estradas ajudam, mas não resolvem sozinhas

As ações de saúde realizadas em rodovias cumprem papel importante ao oferecer triagem, exames básicos e orientação. Em muitos casos, representam a primeira oportunidade de atendimento para profissionais que passam longos períodos viajando.

Ainda assim, o setor entende que medidas isoladas não bastam.

Entre os desafios frequentemente apontados estão:

  • organização mais equilibrada das jornadas;
  • incentivo ao descanso adequado;
  • acesso contínuo a atendimento médico;
  • prevenção ao uso de álcool e drogas;
  • promoção de alimentação saudável nas estradas;
  • acompanhamento da saúde mental.

Segurança nas rodovias depende de olhar mais amplo

Para especialistas em transporte, tratar a saúde do caminhoneiro como tema secundário limita qualquer avanço em segurança viária.

O motorista profissional é peça central da economia brasileira e do abastecimento nacional. Quando trabalha sob desgaste extremo, todo o sistema sente os efeitos.

Por isso, incorporar a saúde do condutor como eixo estratégico pode ser decisivo para reduzir riscos, preservar vidas e tornar o transporte rodoviário mais seguro e sustentável no longo prazo.

Fonte: Portal do Trânsito | Foto: welcomia para Depositphotos

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