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Contaminação química atinge praia, afeta pesca e põe comunidade em alerta na Bahia

Publicado pela ABTLP
  • OUTRO LADO: Terminal Itapuã diz que colabora com as investigações e nunca descarregou efluentes na praia
  • Pesquisadores dizem que região vive ‘acidente ambiental ampliado’, com efeitos sobre o meio ambiente e populações vulneráveis

Quando a maré recua na praia de São Tomé de Paripe, em Salvador, as poças se formam entre as pedras na faixa de areia e revelam manchas azuis e amarelas na água. O aspecto brilhante chama a atenção de quem passa, e o cheiro forte incomoda.

As manchas começaram a aparecer em fevereiro e são resultado da contaminação por compostos químicos como nitrato, nitrito e cobre. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil e pelo Inema, órgão ambiental do governo da Bahia, que determinou a interdição temporária da praia.

Encravada no Subúrbio Ferroviário de Salvador, a praia é frequentada por banhistas, além de pescadores e marisqueiras que vivem do mar e dos mangues na baía de Todos-os-Santos. A área fica próxima à Base Naval de Aratu, que já hospedou presidentes como Lula (PT), Dilma Rousseff (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

As inspeções realizadas pelo Inema constataram irregularidades relacionadas à operação do terminal Itapuã, operado pela Intermarítima, especializado em granéis, minérios e fertilizantes. O terminal fica no mar e as cargas são levadas para terra, em Paripe, por meio uma correia transportadora.

O terminal disse que colabora com as investigações e que está cumprindo a interdição temporária determinada pelo Inema. Também afirmou que opera no local desde 2022 e que nunca descarregou efluentes na praia, tampouco produtos como cobre ou nitrato.

O Inema, contudo, afirma que os resultados laboratoriais apontaram, “de forma consistente”, a compatibilidade entre o material encontrado na faixa de areia e os insumos manuseados pela empresa.

Um relatório técnico elaborado pelos pesquisadores Alexandre Pessoa Dias e Hermano Albuquerque de Castro, ambos da Fiocruz, classifica a contaminação como um “acidente ambiental ampliado”, com efeitos contínuos e cumulativos sobre o meio ambiente e as populações vulneráveis da região.

O estudo aponta que comunidades periféricas e majoritariamente negras são as mais afetadas.

“A gente vem travando essa luta com a empresa e os poderes públicos. Fizemos várias manifestações, mas nada foi resolvido. É uma situação crítica”, afirma o pescador Leandro dos Santos Souza, 33, morador de Paripe e que tem do mar o principal sustento da sua família.

Pescadores e marisqueiras também relatam a mortandade de peixes, mariscos e camarões, com impacto na segurança alimentar das comunidades. A possível contaminação da fauna marinha está sendo analisada em uma pesquisa liderada pelo professor Francisco Kelmo, do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia.

O Terminal Itapuã disse que câmeras de monitoramento registraram pesca com explosivo a poucos metros do píer, uma prática ilegal.

Impacto sanitário

O contato com as substâncias químicas pode causar problemas de saúde como infecções, hepatite A e conjuntivite. Entre os moradores de Paripe, há relatos de pessoas com sintomas respiratórios, irritações na pele e problemas gastrointestinais.

A vereadora Eliete Paraguassu (PSOL), que acompanha o caso, critica a prefeitura por não adotar um protocolo diferenciado para os pacientes expostos aos produtos químicos e alerta para a dimensão do problema. “É uma das maiores exposições a produtos químicos registradas no Brasil nos últimos anos”, afirma ela.

Em nota, a Prefeitura de Salvador disse que mantém um diálogo permanente com a comunidade local e promoveu uma ação emergencial com a entrega de cestas básicas e atualização do Cadastro Único para acesso a programas sociais.

Disputa de versões

A origem dos compostos químicos, que está sob investigação, também resultou disputa no campo empresarial.

A Intermarítima diz que “análises de água subterrânea e solo apresentadas ao órgão ambiental pela antiga operadora do terminal justificam a origem pretérita dessas manchas”. A antiga operadora do terminal é a Gerdau, que atuou na região entre 1989 e 2022.

Em nota, a Gerdau disse que o terminal foi vendido e a licença ambiental foi transferida para o novo proprietário. Desde então, a operação no local está sob responsabilidade única e exclusiva da nova operadora. “A companhia reafirma seu compromisso de transparência e diálogo contínuo com seus públicos de interesse.”

Ministério Público da Bahia recomendou a revisão e possível anulação da licença de operação do Terminal Itapuã, apontando falhas no licenciamento, lacunas no controle ambiental e riscos à saúde pública e ao meio ambiente.

Caso a licença não seja anulada, a Promotoria defende restrições a produtos considerados perigosos, caso do nitrato de amônio puro, controle do tráfego de caminhões, melhorias no tratamento de efluentes, além da elaboração de planos de emergência e recuperação ambiental.

Morador de Paripe, o eletrotécnico Jocival David, 48, diz que a comunidade seguirá empenhada para garantir uma praia limpa: “Estamos firmes, fortes e lutando para que nosso bairro volte a ganhar vida e a nossa praia volte a respirar.”

Fonte: Folha | Imagem: Divulgação Associação de Moradores de São Tomé de Paripe

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