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Os impactos do abastecimento de combustíveis para inflação, frete e custo de vida

Publicado pela ABTLP
O setor de distribuição exerce um papel fundamental para a economia: uma paralisação de 24h poderia representar perdas de até R$ 9,1 bilhões para o PIB nacional

Os combustíveis estão presentes em praticamente todas as atividades econômicas do país. Da produção e distribuição de alimentos ao transporte, passando pela indústria, saúde e comércio, seu impacto vai muito além da mobilidade. Por isso, as oscilações nos preços dos combustíveis têm reflexos diretos sobre a inflação, os custos logísticos e o custo de vida da população. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os combustíveis integram o grupo de transportes, que tem um peso de 20,6% sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Assim, as oscilações nos preços dos combustíveis têm influência direta sobre os índices de inflação, com consequências para as empresas e para o consumidor final. Mas quais são os fatores decisivos para a composição do valor cobrado nas bombas?

Margem estreita

A composição do preço dos combustíveis envolve fatores que vão muito além da distribuição. Um levantamento da LCA Consultoria Econômica, uma das maiores empresas do setor no país, com 30 anos de atuação no mercado, analisou informações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e constatou que 61% do preço final é resultado da produção e da importação. Os tributos ficam com 16%, em média. A mistura obrigatória de biocombustíveis responde por 10%, enquanto distribuição e revenda somam 13% – e a participação das distribuidoras é de menos da metade desse percentual.

Embora tenha participação reduzida na composição do preço final, o segmento de distribuição é responsável por uma operação de alta complexidade, que abrange desde a logística e a armazenagem até o controle de qualidade e a realização da mistura obrigatória de biocombustíveis. Além dessa estrutura operacional, os preços sofrem o impacto do câmbio — especialmente no produto importado, em especial o diesel, cuja demanda depende em cerca de 30% de fontes externas — e da concorrência local, fatores que tornam a atividade ainda mais estratégica.

Essa relevância faz com que a distribuição seja vista como a “coluna vertebral” da cadeia de combustíveis, segundo afirma David Zylbersztajn, presidente do Conselho de Administração do Sindicom e ex-diretor-geral da ANP. Ele explica que, para garantir o abastecimento e fazer o combustível chegar efetivamente ao interior do país, o setor realiza aportes massivos em tecnologia de controle de qualidade e em infraestrutura logística multimodal, o que inclui terminais, dutos, ferrovias e bases de armazenamento.

A malha robusta de transporte detalhada por Zylbersztajn é indispensável para superar o descompasso geográfico existente em um país com dimensões continentais, conforme aponta Gustavo Madi, da LCA Consultoria. Segundo ele, a produção de combustíveis é altamente concentrada, mas o consumo é capilarizado, cabendo justamente às distribuidoras conectar os diferentes pontos da cadeia de produção e refino.

Na prática, são essas empresas que realizam as misturas obrigatórias dos combustíveis fósseis, localizados no litoral, com os renováveis, produzidos principalmente no Sudeste e no Centro-Oeste, entregando o produto para quase 50 mil postos em todos os municípios de um Brasil de dimensões continentais. Madi classifica a operação como “um grandedesafio logístico” e acrescenta que essa complexidade de rede também se estende ao mercado de lubrificantes. Nesse segmento, a circularidade proporcionada pelo reaproveitamento do produto e das embalagens demanda um esforço igualmente complexo para garantir a coleta adequada e o envio para as centrais de re-refino, que são poucas e concentradas em termos geográficos.

Oscilações naturais

Em cenários marcados por alta volatilidade e incertezas como o atual, as oscilações nos preços deixam de ser uma exceção e passam a figurar como um movimento natural de mercado, avalia David Zylbersztajn.

“Diante da expectativa de dificuldades, é natural que o preço suba, como acontece com qualquer commodity”, afirma o executivo, ponderando que, neste caso específico, a crise tem se prolongado e ganhado novas camadas de complexidade a cada dia.

Se o ambiente internacional impõe desafios, por outro lado, o cenário brasileiro apresenta fatores que contribuem para a resiliência do setor, avalia Marcio Lago, professor de estratégia e precificação, pesquisador da FGV Energia e ex-Superintendente de Estudos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.

O Brasil reúne condições únicas para se consolidar como uma potência energética. Logo seremos exportadores de energia renovável, inclusive para a navegação e a aviação. É uma posição invejável, fortalecida pelo setor de distribuição, que se mostra eficiente diante de todos os desafios que enfrenta.” Um dos fatores que dificultam a rotina das companhias, afirma ele, é o desafio de controlar o mercado ilegal. “O país é muito grande e difícil de fiscalizar, o que abre margem para fraudes e dificuldades para recolhimento de impostos”.

Além de investir R$ 4,2 bilhões em inovação e modernização das operações, o setor contribui diariamente para a estabilidade do fornecimento de combustíveis no país. Uma eventual interrupção no abastecimento poderia representar perdas de até R$ 9,1 bilhões por dia para o Produto Interno Bruto (PIB). “Sem a atuação das distribuidoras, seria gerado um cenário de frequente desabastecimento, aumento de custos e pressão generalizada sobre os preços”, ressalta Madi, da LCA Consultoria.

Fonte: Valor com informações do SINDICOM | Foto: iStock

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