Informativos ABTLP • Notícias em Destaque

Com juro real de 8,45% ao ano, Brasil lidera ranking mundial e desafia investimentos no transporte

Publicado pela ABTLP
Radar CNT do Transporte mostra como o elevado custo do crédito no país influencia decisões de renovação de frota, modernização e expansão das empresas de transporte e investimentos em infraestruturas

O Brasil ocupa a primeira posição no ranking mundial de juros reais, com taxa de 8,45% ao ano, segundo levantamento da MoneYou, com participação da Lev Intelligence, realizado em setembro de 2026. O indicador evidencia um cenário de alto custo do capital, com reflexos sobre as decisões de investimento das empresas, especialmente em setores intensivos em recursos financeiros, como a operação de transporte e logística e daquelas que ofertam infraestrutura de transporte. O tema é abordado pelo Radar CNT do Transporte – Taxas de juros nominal e real, lançado nesta quinta-feira (4), após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidir, por unanimidade, manter a taxa básica de juros Selic a 13,75% ao ano para avaliar melhor as perspectivas econômicas após a eleição presidencial de outubro. A publicação da CNT analisa a diferença entre juros nominais e reais e seus efeitos sobre a atividade empresarial.

O estudo destaca que compreender o custo efetivo do dinheiro é fundamental para avaliar a viabilidade de investimentos de médio e longo prazo, como a aquisição de caminhões e ônibus, a modernização de equipamentos e a ampliação da capacidade operacional.

No ranking internacional, o Brasil registra juros reais de 8,45% ao ano, seguido pela Rússia, com 6,8%, e por Colômbia e Turquia, ambas com aproximadamente 6,3%. Em termos nominais, entretanto, o país ocupa a quarta posição, com taxa de 13,75%, atrás da Turquia (37%), da Argentina (29%) e da Rússia (14%). A diferença entre as classificações evidencia como a inflação interfere na avaliação do custo efetivo dos financiamentos.

A distinção entre as duas taxas é especialmente relevante para o planejamento das empresas, já que, enquanto os juros nominais correspondem à taxa apresentada nos contratos de crédito, os juros reais representam o custo do financiamento após considerar a inflação esperada para o período. Esse indicador permite avaliar quanto um investimento precisa render, acima da inflação, para compensar o capital empregado.

Uma simulação apresentada pelo Radar CNT ilustra essa diferença. Em um primeiro cenário, um financiamento com taxa nominal de 14,0% ao ano e inflação esperada de 9,0% resulta em juros reais de 4,6%. Em outro, uma taxa nominal de 11,0%, combinada a uma inflação esperada de 3,0%, representa juros reais de 7,8%. Apesar de apresentar juros nominais menores, o segundo financiamento tem um custo real quase 70,0% superior ao primeiro.

Para a diretora executiva da CNT, Fernanda Rezende, a avaliação do custo real do crédito é essencial para orientar as decisões de investimento das empresas de transporte. “Mais do que observar a taxa de juros apresentada pelas instituições financeiras, o empresário precisa considerar o impacto da inflação sobre o custo efetivo do financiamento e avaliar se o retorno esperado do investimento será suficiente para compensar os recursos empregados”, destaca.

Juros elevados e decisões de investimento no transporte

A decisão de investir depende da comparação entre o retorno real esperado do empreendimento e o custo real do capital. Na aquisição de um veículo, por exemplo, a empresa deve considerar as receitas geradas ao longo de sua vida útil, descontados os custos operacionais, para avaliar se o investimento será capaz de remunerar os recursos empregados. Quando o retorno supera o custo real do financiamento, a operação tende a agregar valor ao negócio.

A inflação também influencia as receitas, os custos dos serviços e o valor dos ativos. Por isso, comparar projeções financeiras a preços constantes com taxas nominais de financiamento pode levar a avaliações equivocadas sobre a viabilidade do investimento. A análise em termos reais permite uma comparação mais precisa entre o custo do capital e os resultados esperados, contribuindo para decisões de renovação de frota, modernização e expansão das operações.

O estudo também analisa os fatores que contribuem para a manutenção dos juros reais altos no Brasil. Entre eles, está o risco fiscal associado à trajetória da dívida pública, que aumenta a percepção de incerteza dos investidores e pode elevar o prêmio exigido para financiar o governo. O histórico de inflação elevada também influencia esse cenário, uma vez que mecanismos de indexação de preços, contratos e salários tornam a inflação mais persistente. Além disso, a estrutura do mercado de crédito, com linhas de financiamento que seguem regras próprias e não acompanham diretamente a Selic, reduz o alcance da política monetária.

Outro conceito abordado pelo Radar é o de juro real neutro, correspondente à taxa que não estimula nem restringe a atividade econômica. Para o Brasil, as estimativas situam esse indicador entre 6% e 10% ao ano, patamar considerado elevado. O documento ressalta, contudo, que não há consenso entre economistas sobre o nível adequado dos juros no país. Parte deles avalia que seria possível praticar taxas menores sem comprometer a meta de inflação, enquanto outros apontam fatores estruturais que ajudam a explicar a necessidade de juros mais elevados.

Fonte: Confederação Nacional do Transporte | Foto: Marcello Casal / Agência Brasil

Deixe um comentário